Vale privatizada deve se tornar mais ágil

Data Original: 12/05/1997
Postado em: 5 de novembro de 2016 por: Reginaldo Alexandre
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Folha de S.Paulo - Reportagens

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A privatização da Vale do Rio Doce deve deixar a empresa mais ágil, facilitando as parcerias e a ex­ploração de novos mercados. As­sim as ações da empresa conti­nuam sendo boa opção de investi­mento, segundo analistas. Do ponto de vista administrati­vo, a principal vantagem é deixar a Vale livre das regras que as empre­sas estatais são obrigadas a seguir em suas atividades, como a legisla­ção que regula as licitações. Reginaldo Alexandre, analista de investimentos do Unibanco, con­sidera esse ponto muito importan­te para o futuro da companhia.

“Apesar de a Vale contar com um corpo técnico com indepen­dência, a empresa era obrigada a seguir as regras comuns a todas as estatais”, diz o analista. O fato de as estatais serem obri­gadas a fazer licitação para qual­quer compra faz com que a empre­sa acabe tendo um estoque de ma­térias-primas e de equipamentos maior que o necessário, já que uma compra por meio de licitação é sempre mais demorada. “Como regra geral, a Lei das Li­citações é bastante razoável. Mas a Vale era obrigada a imobilizar muitos recursos em seus estoques, o  que agora não será mais necessário”, afirma Alexandre.

Além disso, a Lei das Licitações tem ainda um outro problema: o critério do menor preço. Com isso, a estatal pode ser obrigada a comprar determinado produto de menor qualidade, pelo fato de ser o menor preço oferecido entre as propostas dos fornecedores. Administração do caixa Há ainda o caixa da Vale, que era gerido de acordo com regras esta­belecidas pelo Banco Central, sempre usando o Banco do Brasil como intermediário em suas ope­rações no mercado financeiro.

Agora a empresa poderá admi­nistrar seus recursos com maior li­berdade, podendo inclusive fazer operações como o adiantamento de câmbio, aplicando os recursos em outros ativos, mais rentáveis. O analista do Unibanco considera ainda que vai tornar mais fácil a formulação de parcerias em setores que a empresa já atua e também na entrada em novos ramos de atividade, no Brasil e no exterior.

Fatiar ou não

A vitória do consórcio comanda­do pela CSN (Companhia Siderúr­gica Nacional) fez aumentar a es­peculação de que a empresa pode vir a ser fatiada, com a venda de algumas das coligadas. Para o analista do Unibanco, isso dificilmente ocorrerá, ao menos nos primeiros meses pós-leilão. Isso porque os projetos da Vale são, na maioria dos casos, de longo prazo de maturação, incluindo complexas operações de engenha­ria financeira, com contratos de parceria em quase todos os seg­mentos em que a empresa atua.

Lucros

Com tudo isso, Reginaldo Ale­xandre diz acreditar que aumenta a possibilidade de crescimento do lucro, que o Unibanco estimava que deveria crescer 12%, sem levar em conta os efeitos da privatiza­ção, ainda de difícil mensuração. “Independente de quem ga­nhou o leilão, está mais fácil para a Vale ganhar dinheiro”, conclui. No ano passado, a empresa re­gistrou lucro de R$ 517 milhões. Enquanto isso, a dívida da Vale está hoje em cerca de R$ l,7 bilhão, baixa em termos internacionais, considera o analista.

Ação ON deve ganhar espaço

O ritmo de valorização dos dois papéis da Vale do Rio Do­ce na Bolsa de Valores de São Paulo está longe de ser unifor­me. Na comparação do desem­penho no ano entre as ações PN e as ON, as primeiras estão com uma vantagem considerável. De acordo com a consultoria Economática, as ações do tipo PN (preferencial nominativa) subiram 30,6%, enquanto as ON (ordinária nominativa) re­gistraram alta de apenas 5,5%. As duas estão com desempe­nho inferior ao da média dos principais papéis, medida pelo Ibovespa, que subiu 49%, se­gundo a consultoria. O Ibovespa, no entanto, re­flete em larga medida a varia­ção dos preços das ações da Te­lebrás, que costumam concen­trar mais da metade dos negó­cios do mercado paulista. A diferença entre as duas ações é que Vale PN tem prefe­rência na distribuição dos lucros, enquanto as 0N são pa­péis que dizem respeito ao di­reito a voto nas decisões, mas que também podem receber di­videndos.

Liquidez

O Unibanco prefere então dar a recomendação “aguar­dar, sob observação” para os investidores interessados em comprar ações do tipo ON. En­quanto as PN ficam com a re­comendação” comprar”.

Segundo o analista Reginaldo Alexandre a situação das ações Vale ON deve melhorar, espe­cialmente a partir de setembro, quando esses papéis serão ofe­recidos em leilão ao público. “Como o bloco de controle da Vale já está fechado depois do leilão, o investidor deve olhar para Vale ON sob a pers­pectiva de distribuição de lu­cros e de valorização da empre­sa”, considera. Com o leilão das ON, deve aumentar a liquidez do papel, abrindo espaço para a alta.

 

Sobre

Economista, com vinte anos de experiência na área de análise de investimentos, como analista, coordenador, organizador e diretor de equipes de análise, tendo ocupado essas posições, sucessivamente, no Citibank, Unibanco, BBA/Paribas, BBA (atual Itaú-BBA) e Itaú Corretora de Valores. Atuou ainda como analista de crédito corporativo (Citibank) e como consultor nas áreas de estratégia (Accenture) e de corporate finance (Deloitte). Hoje, atua na ProxyCon Consultoria Empresarial, empresa que se dedica às atividades de assessoria e prestação de serviços nas áreas de mercado de capitais, finanças e governança corporativa.

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