Real em queda – Gangorra das ações

Data Original: 17/03/1999
Postado em: 10 de abril de 2016 por: Reginaldo Alexandre
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Carta Capital - Reportagens

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Têxteis, cimento e alimentos devem ganhar mercado. Mas há divergências quanto a comprar ou não os papéis.

SEM A CONCORRÊNCIA DOS PRODUTOS importados, vários setores prometem ampliar suas fa­ tias de mercado e crescer mesmo em ritmo de queda da economia brasileira. Fabricantes de cimento, produtos têxteis, tabaco e alimentos são destaque entre aqueles com maior probabilidade de ganhar participação graças à desvalorização do real. A avaliação é da Lloyds Asset Management (LAM) empresa de administração de recursos da filial local do banco inglês.

De acordo com estudo que a companhia acaba de concluir, as empresas desses se­tores, com exceção de tabaco, ainda estão cotadas nas bolsas de valores a preços atrativos e, portanto, têm espaço para alta num prazo estimado entre o segundo semestre deste ano e o primeiro do ano que vem. Há quem discorde. Outro trabalho de análise, este com assinatura da Hedging-Griffo Asset Management, empresa de gestão de ativos da corretora de mesmo nome, não aponta novas possibilidades de alta criadas pela desvalorização além das que já foram consumadas.

A pesquisa do Lloyds ( veja tabela), além de analisar ganhos de market share, mostra como a mudança .ambial afeta os setores sob os pontos de vista de fa­turamento (por exemplo, empresas com receita dola­rizada saem ganhando), custos de produção (se dola­rizado , são prejudiciais) e resultado financeiro (companhias com aplicações em dólar e dívidas em reai ão casos positivos).

Flávio Conde, analista-che­fe da lAl’.1, aconselha o investidor a ficar de olho nos papéi des e setores promissores. Com uma impor­tante res alva: a liquidez é baixa em relação a outras acõe da Bolsa. Assim, só valem a pena para investi­dore que não têm a menor pressa de realizar lucro. SOBRE RODAS. Patrick Morin, primeiro ho­ mem do Banco Chase Manhattan no País, conta que o presidente de uma fábrica de pneus no Brasil está eu­fórico porque espera abocanhar dos concorrentes estrangeiros 15% da fatia de merca­do. Conde visualiza boas oportuni­dades de ganhos no setor têxtil, já que mais da metade do mercado era antes dominada por produtos importados.

Em sua avaliação, a proporção da produção doméstica deverá crescer brutalmente. Com isso, é possível que diversas empre­sas durante tantos anos operando no vermelho, passem a lucrar. Mas o analista aposta na alta das ações somente a partir do ano que vem, com a retomada da economia. O Lloyds Bank estima queda de 3%no PIB neste ano e alta de 5% em 2000. No setor de cimento, a ten­dência a médio prazo é de aumento de preços ( e, conseqüentemente, de receita) com a diminuição da concorrência estrangeira. A reces­são limitará reajustes em 1999, mas não mais no ano que vem.

CALORIAS

As empresas de ali- mentos já conseguiram elevar em 10% os preços ao consumidor das carnes in natura (aves, suínos e bo­vinos) e derivados desde a desvalo­rização do real, informa Conde. Antes da desvalorização, a impor­tação de carne bovina da Argentina era forte fator limitador para re­marcação das etiquetas. Para o ana­lista, as companhias do setor mere­cem atenção do investidor, porque soja e milho, que juntos correspondem a 70% do cus­to de produção, estão bem baratos – a soja está hoje cotada ao menor valor em dólar dos últimos 23 anos.

Além disso, de 1997 para cá, as empresas montaram urna eficiente estrutura de vendas no exterior. Com a queda do real, podem até baixar preços para conquis­tar novas fatias de mercado fora do Brasil. O maior en­trave é, obviamente, a recessão econômica. Com a di­minuição da renda da população, produtos mais sofis­ticados, como refeições prontas, tendem a ser substi­tuídos por carnes in natura. Conde prevê que este úl­timo fator não impedirá um aumento de receita.

NO PREÇO

Reginaldo Alexandre, analista de in­ vestimentos do Banco BBA, acrescenta outros vence­dores com a desvalorização: empresas cujos produtos têm preços definidos internacionalmente, como side­rúrgicas, petroquímicas, mineradoras e fabricantes de papel e celulose. Exemplo: as importações chega­ram a suprir 7% do consumo aparente do aço do Brasil mas, agora, deverão voltar aos patamares histó­ricos de 2% e 3%. Segundo Alexandre, estas empresas tendem a negociar aumentos de preços com os clien­tes. Se não conseguem fazer o reajuste aqui, podem pressionar o próximo elo da cadeia, alegando que venderão os produtos no exterior. Xeque-mate: sem oferta nacional, os clientes acabariam tendo de im­portar, ou seja, pagariam mais da mesma forma.

O analista pondera que fabricantes de aços planos, como Usiminas, Companhia Siderúrgica Nacional e Cosipa, terão mais dificuldades em reajustar as tabe­las porque sua clientela é formada principalmente por montadoras e grandes empresas eletroeletrônicas – que, em tese, têm porte e força para disputar a que­da-de-braço. Já Belgo-Mineira e Gerdau, fabricantes de aços longos, atuam junto a empresas de menor porte, como atacadistas de material de construção e produtores rurais, em princípio, com menor cacife para rejeitar a alta de preços.

Segundo Conde, as em­presas desses setores citados por Alexandre já estão cotadas no preço justo, ou seja, não apresentam hoje mais espaço para valorização, pois já estão refletindo as boas perspectivas de ganho. N PR , TICA. Para Dan Cohen, analista-chefe de ações da Hedging-Griffo Asset Management, na prática, a história é outra. O especialista interrompeu na meta­de urna pesquisa sobre as empresas favorecidas por con­quista de market share, a partir da desvalorização cam­bial, ao concluir que os papéis que devem subir de ago­ra em diante são exatamente os mesmos que já consta­vam de sua carteira antes do início da queda do real. São os velhos de guerra dos setores de telefonia fixa, petró­leo, gás, energia elétrica e companhias que fornecem equipamentos para empresas desses setores ( veja tabe­la). “Não há novidades”, diz ele.

Fora desse portfólio, diz, os que tinham chances de ganhar com a desvalori­zação já subiram até atingir o preço justo: Aracruz, Companhia Siderúrgica de Tubarão e Souza Cruz. A pesquisa da Hedging-Griffo não foi adiante porque as outras empresas que estavam sendo analisadas – Embraco, Brasmotor, Weg, Arno, Indústrias Romi e Bardel­la – mostravam perspectiva de aumento de participação de mercado inferior a 15% e 20%, metas que Cohen es­tipulou como mínimas. Abaixo desse índice, a aposta não valeria a pena, avalia, devido à liquidez inferior à das ações que já se encontram no portfólio recomenda­do pela Hedging-Griffo. Além disso, o analista vê risco maior associado a essas companhias tidas como ganha­doras.

“Por que comprar papéis de empresas cujos re­sultados podem ser afetados por flutuações da econo­mia, se temos oportunidade de investir em ativos com risco inferior, a preços bastante atrativos?”, questiona. Entretanto, um dos setores, o têxtil, tem recebido aten­ção em tempo integral por wna analista de sua equipe. As ações hoje recomendadas pela instituição já mostraram forte valorização nos últimos quatro anos e, segundo Cohen, serão imbatíveis nos próximos dois anos. Em geral, além de ter liquidez na Bolsa, foram ou serão privatizadas – portanto, terão ganhos de produ­tividade e demanda reprinúda para atender – e são pouco atreladas ao nível de atividade econômica. Ou­tra vantagem: o risco é basicamente determinado pelo risco Brasil. Se este diminuir, fará com que o investi­mento das empresas seja urna aposta mais segura.

Sobre

Economista, com vinte anos de experiência na área de análise de investimentos, como analista, coordenador, organizador e diretor de equipes de análise, tendo ocupado essas posições, sucessivamente, no Citibank, Unibanco, BBA/Paribas, BBA (atual Itaú-BBA) e Itaú Corretora de Valores. Atuou ainda como analista de crédito corporativo (Citibank) e como consultor nas áreas de estratégia (Accenture) e de corporate finance (Deloitte). Hoje, atua na ProxyCon Consultoria Empresarial, empresa que se dedica às atividades de assessoria e prestação de serviços nas áreas de mercado de capitais, finanças e governança corporativa.

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