Têxteis, cimento e alimentos devem ganhar mercado. Mas há divergências quanto a comprar ou não os papéis.
SEM A CONCORRÊNCIA DOS PRODUTOS importados, vários setores prometem ampliar suas fa tias de mercado e crescer mesmo em ritmo de queda da economia brasileira. Fabricantes de cimento, produtos têxteis, tabaco e alimentos são destaque entre aqueles com maior probabilidade de ganhar participação graças à desvalorização do real. A avaliação é da Lloyds Asset Management (LAM) empresa de administração de recursos da filial local do banco inglês.
De acordo com estudo que a companhia acaba de concluir, as empresas desses setores, com exceção de tabaco, ainda estão cotadas nas bolsas de valores a preços atrativos e, portanto, têm espaço para alta num prazo estimado entre o segundo semestre deste ano e o primeiro do ano que vem. Há quem discorde. Outro trabalho de análise, este com assinatura da Hedging-Griffo Asset Management, empresa de gestão de ativos da corretora de mesmo nome, não aponta novas possibilidades de alta criadas pela desvalorização além das que já foram consumadas.
A pesquisa do Lloyds ( veja tabela), além de analisar ganhos de market share, mostra como a mudança .ambial afeta os setores sob os pontos de vista de faturamento (por exemplo, empresas com receita dolarizada saem ganhando), custos de produção (se dolarizado , são prejudiciais) e resultado financeiro (companhias com aplicações em dólar e dívidas em reai ão casos positivos).
Flávio Conde, analista-chefe da lAl’.1, aconselha o investidor a ficar de olho nos papéi des e setores promissores. Com uma importante res alva: a liquidez é baixa em relação a outras acõe da Bolsa. Assim, só valem a pena para investidore que não têm a menor pressa de realizar lucro. SOBRE RODAS. Patrick Morin, primeiro ho mem do Banco Chase Manhattan no País, conta que o presidente de uma fábrica de pneus no Brasil está eufórico porque espera abocanhar dos concorrentes estrangeiros 15% da fatia de mercado. Conde visualiza boas oportunidades de ganhos no setor têxtil, já que mais da metade do mercado era antes dominada por produtos importados.
Em sua avaliação, a proporção da produção doméstica deverá crescer brutalmente. Com isso, é possível que diversas empresas durante tantos anos operando no vermelho, passem a lucrar. Mas o analista aposta na alta das ações somente a partir do ano que vem, com a retomada da economia. O Lloyds Bank estima queda de 3%no PIB neste ano e alta de 5% em 2000. No setor de cimento, a tendência a médio prazo é de aumento de preços ( e, conseqüentemente, de receita) com a diminuição da concorrência estrangeira. A recessão limitará reajustes em 1999, mas não mais no ano que vem.
CALORIAS
As empresas de ali- mentos já conseguiram elevar em 10% os preços ao consumidor das carnes in natura (aves, suínos e bovinos) e derivados desde a desvalorização do real, informa Conde. Antes da desvalorização, a importação de carne bovina da Argentina era forte fator limitador para remarcação das etiquetas. Para o analista, as companhias do setor merecem atenção do investidor, porque soja e milho, que juntos correspondem a 70% do custo de produção, estão bem baratos – a soja está hoje cotada ao menor valor em dólar dos últimos 23 anos.
Além disso, de 1997 para cá, as empresas montaram urna eficiente estrutura de vendas no exterior. Com a queda do real, podem até baixar preços para conquistar novas fatias de mercado fora do Brasil. O maior entrave é, obviamente, a recessão econômica. Com a diminuição da renda da população, produtos mais sofisticados, como refeições prontas, tendem a ser substituídos por carnes in natura. Conde prevê que este último fator não impedirá um aumento de receita.
NO PREÇO
Reginaldo Alexandre, analista de in vestimentos do Banco BBA, acrescenta outros vencedores com a desvalorização: empresas cujos produtos têm preços definidos internacionalmente, como siderúrgicas, petroquímicas, mineradoras e fabricantes de papel e celulose. Exemplo: as importações chegaram a suprir 7% do consumo aparente do aço do Brasil mas, agora, deverão voltar aos patamares históricos de 2% e 3%. Segundo Alexandre, estas empresas tendem a negociar aumentos de preços com os clientes. Se não conseguem fazer o reajuste aqui, podem pressionar o próximo elo da cadeia, alegando que venderão os produtos no exterior. Xeque-mate: sem oferta nacional, os clientes acabariam tendo de importar, ou seja, pagariam mais da mesma forma.
O analista pondera que fabricantes de aços planos, como Usiminas, Companhia Siderúrgica Nacional e Cosipa, terão mais dificuldades em reajustar as tabelas porque sua clientela é formada principalmente por montadoras e grandes empresas eletroeletrônicas – que, em tese, têm porte e força para disputar a queda-de-braço. Já Belgo-Mineira e Gerdau, fabricantes de aços longos, atuam junto a empresas de menor porte, como atacadistas de material de construção e produtores rurais, em princípio, com menor cacife para rejeitar a alta de preços.
Segundo Conde, as empresas desses setores citados por Alexandre já estão cotadas no preço justo, ou seja, não apresentam hoje mais espaço para valorização, pois já estão refletindo as boas perspectivas de ganho. N PR , TICA. Para Dan Cohen, analista-chefe de ações da Hedging-Griffo Asset Management, na prática, a história é outra. O especialista interrompeu na metade urna pesquisa sobre as empresas favorecidas por conquista de market share, a partir da desvalorização cambial, ao concluir que os papéis que devem subir de agora em diante são exatamente os mesmos que já constavam de sua carteira antes do início da queda do real. São os velhos de guerra dos setores de telefonia fixa, petróleo, gás, energia elétrica e companhias que fornecem equipamentos para empresas desses setores ( veja tabela). “Não há novidades”, diz ele.
Fora desse portfólio, diz, os que tinham chances de ganhar com a desvalorização já subiram até atingir o preço justo: Aracruz, Companhia Siderúrgica de Tubarão e Souza Cruz. A pesquisa da Hedging-Griffo não foi adiante porque as outras empresas que estavam sendo analisadas – Embraco, Brasmotor, Weg, Arno, Indústrias Romi e Bardella – mostravam perspectiva de aumento de participação de mercado inferior a 15% e 20%, metas que Cohen estipulou como mínimas. Abaixo desse índice, a aposta não valeria a pena, avalia, devido à liquidez inferior à das ações que já se encontram no portfólio recomendado pela Hedging-Griffo. Além disso, o analista vê risco maior associado a essas companhias tidas como ganhadoras.
“Por que comprar papéis de empresas cujos resultados podem ser afetados por flutuações da economia, se temos oportunidade de investir em ativos com risco inferior, a preços bastante atrativos?”, questiona. Entretanto, um dos setores, o têxtil, tem recebido atenção em tempo integral por wna analista de sua equipe. As ações hoje recomendadas pela instituição já mostraram forte valorização nos últimos quatro anos e, segundo Cohen, serão imbatíveis nos próximos dois anos. Em geral, além de ter liquidez na Bolsa, foram ou serão privatizadas – portanto, terão ganhos de produtividade e demanda reprinúda para atender – e são pouco atreladas ao nível de atividade econômica. Outra vantagem: o risco é basicamente determinado pelo risco Brasil. Se este diminuir, fará com que o investimento das empresas seja urna aposta mais segura.