A privatização da Vale do Rio Doce deve deixar a empresa mais ágil, facilitando as parcerias e a exploração de novos mercados. Assim as ações da empresa continuam sendo boa opção de investimento, segundo analistas. Do ponto de vista administrativo, a principal vantagem é deixar a Vale livre das regras que as empresas estatais são obrigadas a seguir em suas atividades, como a legislação que regula as licitações. Reginaldo Alexandre, analista de investimentos do Unibanco, considera esse ponto muito importante para o futuro da companhia.
“Apesar de a Vale contar com um corpo técnico com independência, a empresa era obrigada a seguir as regras comuns a todas as estatais”, diz o analista. O fato de as estatais serem obrigadas a fazer licitação para qualquer compra faz com que a empresa acabe tendo um estoque de matérias-primas e de equipamentos maior que o necessário, já que uma compra por meio de licitação é sempre mais demorada. “Como regra geral, a Lei das Licitações é bastante razoável. Mas a Vale era obrigada a imobilizar muitos recursos em seus estoques, o que agora não será mais necessário”, afirma Alexandre.
Além disso, a Lei das Licitações tem ainda um outro problema: o critério do menor preço. Com isso, a estatal pode ser obrigada a comprar determinado produto de menor qualidade, pelo fato de ser o menor preço oferecido entre as propostas dos fornecedores. Administração do caixa Há ainda o caixa da Vale, que era gerido de acordo com regras estabelecidas pelo Banco Central, sempre usando o Banco do Brasil como intermediário em suas operações no mercado financeiro.
Agora a empresa poderá administrar seus recursos com maior liberdade, podendo inclusive fazer operações como o adiantamento de câmbio, aplicando os recursos em outros ativos, mais rentáveis. O analista do Unibanco considera ainda que vai tornar mais fácil a formulação de parcerias em setores que a empresa já atua e também na entrada em novos ramos de atividade, no Brasil e no exterior.
Fatiar ou não
A vitória do consórcio comandado pela CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) fez aumentar a especulação de que a empresa pode vir a ser fatiada, com a venda de algumas das coligadas. Para o analista do Unibanco, isso dificilmente ocorrerá, ao menos nos primeiros meses pós-leilão. Isso porque os projetos da Vale são, na maioria dos casos, de longo prazo de maturação, incluindo complexas operações de engenharia financeira, com contratos de parceria em quase todos os segmentos em que a empresa atua.
Lucros
Com tudo isso, Reginaldo Alexandre diz acreditar que aumenta a possibilidade de crescimento do lucro, que o Unibanco estimava que deveria crescer 12%, sem levar em conta os efeitos da privatização, ainda de difícil mensuração. “Independente de quem ganhou o leilão, está mais fácil para a Vale ganhar dinheiro”, conclui. No ano passado, a empresa registrou lucro de R$ 517 milhões. Enquanto isso, a dívida da Vale está hoje em cerca de R$ l,7 bilhão, baixa em termos internacionais, considera o analista.
Ação ON deve ganhar espaço
O ritmo de valorização dos dois papéis da Vale do Rio Doce na Bolsa de Valores de São Paulo está longe de ser uniforme. Na comparação do desempenho no ano entre as ações PN e as ON, as primeiras estão com uma vantagem considerável. De acordo com a consultoria Economática, as ações do tipo PN (preferencial nominativa) subiram 30,6%, enquanto as ON (ordinária nominativa) registraram alta de apenas 5,5%. As duas estão com desempenho inferior ao da média dos principais papéis, medida pelo Ibovespa, que subiu 49%, segundo a consultoria. O Ibovespa, no entanto, reflete em larga medida a variação dos preços das ações da Telebrás, que costumam concentrar mais da metade dos negócios do mercado paulista. A diferença entre as duas ações é que Vale PN tem preferência na distribuição dos lucros, enquanto as 0N são papéis que dizem respeito ao direito a voto nas decisões, mas que também podem receber dividendos.
Liquidez
O Unibanco prefere então dar a recomendação “aguardar, sob observação” para os investidores interessados em comprar ações do tipo ON. Enquanto as PN ficam com a recomendação” comprar”.
Segundo o analista Reginaldo Alexandre a situação das ações Vale ON deve melhorar, especialmente a partir de setembro, quando esses papéis serão oferecidos em leilão ao público. “Como o bloco de controle da Vale já está fechado depois do leilão, o investidor deve olhar para Vale ON sob a perspectiva de distribuição de lucros e de valorização da empresa”, considera. Com o leilão das ON, deve aumentar a liquidez do papel, abrindo espaço para a alta.